
Quem visita pela primeira vez a Fazendinha, no Jardim Amália, em Caçapava, dificilmente acredita que esse lugar cheio de vida e muito verde abrigava, há pouco mais de cinco anos, um lixão. Entre árvores frutíferas, flores, lago e muitos animais, o cenário agora lembra o clima bucólico de uma morada na roça.
A transformação começou quando um grupo de moradores, muitos deles aposentados do bairro, decidiu mudar a história de degradação do local.
A comunidade passou a limpar, plantar e ocupar o espaço, uma área pública que pertence ao município e que tem cerca de um quilômetro de extensão, localizada na descida da rua Padre José Benedito Alves Monteiro, entre a linha férrea e a via.
A mobilização teve início há cerca de oito anos. O aposentado Moacir Ramos dos Santos, 69 anos, foi um dos primeiros do grupo a dar início à jornada de modificação da área, inspirando outros voluntários que se juntaram à iniciativa.
Ele havia construído uma casa na rua Primeiro Centenário de Jambeiro, via que dá acesso à Fazendinha, e costumava andar por ali, mas se incomodava com a degradação do local.

O lixão desafiava o poder público e a comunidade do bairro. O descarte irregular, que muitas vezes era feito à noite e por moradores de outras regiões da cidade, tinha de tudo, de pedaços de móveis até animais mortos. “A prefeitura chegava a retirar caminhões de lixo, mas três dias depois o local estava transbordando novamente”, diz ele. “Eu olhava aquilo, aquele riozinho ali, e pensava: ‘dá para fazer alguma coisa’”.
Foi então que decidiu iniciar a limpeza no espaço, capinando entre as árvores e organizando o que dava. O vizinho, também aposentado, João Batista, que havia iniciado uma plantação de cebolinha numa área mais à frente, foi outro que passou a colaborar. Aos poucos, mais moradores foram se engajando e o trabalho fluindo.
Moacir conta que nasceu na Zona Rural de Caçapava e só mudou para a cidade quando iniciou os estudos, na Escola Ruy Barbosa. A habilidade para lidar com a terra fez a diferença na nova empreitada.
À medida que avançavam com a limpeza, foram surgindo as possibilidades de embelezamento do local. “Começamos a cuidar da beira do lago. O Joãozinho – João Batista – disse: ‘Moacir, se a gente limpar essa vertente, ela pode dar água”’, lembra. Depois da limpeza, vieram as chuvas. Ela ganhou força e virou um pequeno córrego. Eles organizaram o entorno e receberam a primeira doação de peixes para o lago.

Mais tarde, ele ganhou uma galinha garnisé, comprou um galo e assim começaram a estruturar o que seria a Fazendinha.
Atualmente, a criação conta com coelhos, tartarugas, galinhas, patos, gansos, marrecos e perus, que encantam quem passa pelo local, especialmente as crianças que utilizam a área de lazer. Uma das atrações do lago é a família de patos que nadam livre por ali. “Não tem como não gostar. A gente volta a ser criança”, diz ele.
Com o envolvimento dos moradores, a área foi ganhando vida e eles batizaram como “Recanto dos Aposentados”. Pouco depois, perceberam que a vocação do lugar não era a de ser uma espécie de clube para maiores de 60 anos, mas um espaço de convívio para toda a comunidade.
Moacir conta que muitas pessoas passavam por ali e não entravam, porque achavam que aquele seria um espaço exclusivo para pessoas aposentadas. “Numa roda de bate-papo, decidimos mudar para Fazendinha”, lembra.

Paralelamente ao trabalho da comunidade, a Prefeitura iniciou a revitalização dessa área do bairro e, em 2020, entregou a obra de recuperação com o recapeamento da rua, construção de calçada, instalação de cerca e plantação de 200 mudas de árvores nativas da Mata Atlântica.
Os moradores ampliaram o plantio de árvores e melhoraram a infraestrutura do local. Construíram ponte, fogão a lenha, cozinha comunitária, rancho para guardar ferramentas e uma área coberta para proteção dos visitantes, em caso de chuva, além de instalarem bancos e mesas.
Quase tudo foi feito com material reaproveitado, proveniente de restos de construção, explica ele. A área de lazer também ganhou parquinho e outros brinquedos. “Isso tudo foi atraindo as crianças. É muito gratificante!” conclui.

Hoje, quem visita o local usufrui de toda a infraestrutura, com muita sombra e 19 tipos de frutas, entre elas banana, limão, laranja, abacate, manga, acerola, figo, ameixa, jaboticaba, goiaba, mamão, graviola e uva.
“Gosto muito deste espaço. É um ponto de referência de lazer seguro, divertido, de interações com a natureza para os adultos e para as crianças. Em especial para meus sobrinhos”, afirma Sandra Nuncia Strano Durante.
Para manutenção do espaço, o grupo de moradores que cuida da Fazendinha conta com a contribuição de voluntários por meio da doação de mão de obra e de recursos para alimentação dos animais. “Os visitantes e amigos começaram a doar ração, quirera, milho e remédio”, explica Moacir.
O grupo também organiza rifas para arrecadar fundos e recebe outros tipos de doação, como camisetas para os colaboradores que estão no dia a dia dos cuidados com a terra e com os bichos.
Sandra é uma dessas voluntárias. Ela conta que procura “estar presente com contribuição financeira em ações promovidas pelos colaboradores”.
Inspiração que transforma
Quando iniciou o trabalho voluntário na recuperação da área da Fazendinha, Moacir conta que não tinha ideia de onde iria chegar. “Foi muito além do que eu esperava”. O trabalho impactou a comunidade e começou a ganhar visibilidade para além de Caçapava.
Atualmente, cerca de 3.000 pessoas visitam o espaço por mês, segundo Moacir. Entre eles moradores que estão sempre por lá e grupos de alunos de escolas de Caçapava e de outras cidades, que aproveitam a estrutura para atividades fora da sala de aula.
Depois de anos de lida com a Fazendinha, Moacir precisou se afastar dessas atividades em 2023, por recomendação médica e tratamento num dos joelhos.
Mesmo não estando mais na linha de frente dos trabalhos diários, ele segue colaborando e incentivando outros amigos do projeto.
Um deles é o aposentado Nilton de Melo, o Ninão, para quem a Fazendinha representa muito mais que uma distração após a aposentadoria. Ninão conta que teve depressão e ficou três anos em tratamento. Por orientação médica, foi buscar atividades em meio ao verde e encontrou a Fazendinha.
O trabalho em contato com a natureza e a interação com os visitantes, especialmente com as crianças, foram decisivos para melhoria da qualidade de vida dele. “A Fazendinha hoje é tudo na minha vida”, afirma. Atualmente, ele é um dos voluntários que tomam conta do espaço.

A transformação de uma área de descarte irregular em espaço verde de convivência já foi tema de reportagens na televisão, o que contribuiu para ampliar o alcance da iniciativa. Mas foi a ação consciente de uma pessoa, que se juntou a outra e depois a muitas outras, que revelou força capaz de mobilizar o coletivo e mudar o cenário de um lixão a céu aberto para um espaço cheio de vida e motivo de orgulho para a comunidade.

Colaboram com a Fazendinha: Dona Maria Schneider, Sandra, Jairo, Johnny, Sr. Geraldo, Dona Graça, Sr.Vadinho, Sr. Nelson, Ailton, Sr João, Sr. Nilton (Ninão), Sr. Fernando (Pet), Sr. Levi, Dona Fátima entre muitos outros voluntários.
Texto por Maria Bernardino
Fotos: Vinicius Branca, Sergio Verissimo e arquivo pessoal