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Wilson Azevedo

A história da educação em Caçapava.

O professor Wilson Azevedo construiu uma carreira sólida na educação pública de Caçapava sempre fiel à sua crença de que “conhecimento precisa ser passado adiante”. E ele compartilhou o que sabia com muita gente. Ao longo de décadas de atuação, formou e inspirou gerações de estudantes que seguiram multiplicando seu legado. Foram tantos alunos que ele perdeu a conta.

Hoje, aos 96 anos, ele relembra com lucidez sua trajetória, que se confunde com a história da educação no município. E ressalta que “passar conhecimento para os outros é muito importante!”

Em Caçapava, lecionou em algumas das principais escolas e contribuiu de maneira decisiva para a formação de pessoas que mais tarde se tornariam professores, gestores e pesquisadores de destaque. 

A lista de ex-alunos é extensa. Por suas aulas de desenho geral passaram nomes como a professora e ex-vice-prefeita de Caçapava, Darcy Breves de Almeida que foi um dos rostos da 1ª edição do Um Furo No Muro; o atual secretário Municipal de Educação, professor Sidnei Sanita; Pérola de Castro, professora e pesquisadora do Instituto de Química da USP (Universidade de São Paulo), entre tantos outros que, em algum momento, receberam os ensinamentos do antigo mestre e transmitiram para outras pessoas. 

Em sua casa, na Vila São João, o professor segue atento ao que acontece ao seu redor e relembra as escolas por onde passou. Em muitas delas, atendia mais alunos do que o recomendado. “Era para dar aula, de acordo com a legislação, para no máximo 35 alunos. A minha menor classe tinha 48”.

Formatura no Estadinho em 1964

Ele iniciou a carreira no começo dos anos 50 e acompanhou de perto as transformações do ensino público. Em Caçapava, trabalhou em instituições que marcaram a história da cidade. Entre elas, o então Ginásio Municipal, onde hoje funciona a Escola Estadual Professor João Gonçalves Barbosa, o “Estadinho”, na Praça da Bandeira. Posteriormente, o Ginásio foi transferido para as novas instalações da Escola Estadual Moura Resende – o “Brejão” -, no Jardim Amália, ele acompanhou a mudança, permanecendo ali até a aposentadoria.

A vocação

Filho de pais caçapavenses, ele nasceu em São José dos Campos, onde o pai, Alberto Azevedo, passou a morar após se casar com sua mãe, a dona de casa Magdalena Bettoni Azevedo. Ainda criança, voltou com a família para Caçapava, onde cresceu e construiu sua história. 

Fruto de seu legado na educação, recebeu o Título de Cidadão Caçapavense

Seus primeiros anos de estudo foram no então Grupo Escolar Ruy Barbosa. Segundo ele, o pai, insatisfeito com a avaliação que os professores fizeram de seu desempenho, o transferiu para o “Jardim da Infância” Dona Marocas, no Largo São Benedito, onde atualmente fica a Praça da Bandeira. Depois, seguiu os estudos no recém-criado Ginásio Municipal de Caçapava e na Escola Normal – atual Estadinho.

Desde muito cedo, descobriu o gosto pelas letras e artes. Enquanto estudava no ginásio, escrevia pequenas colunas semanais de humor, que eram publicadas no jornal local “O Povo”, periódico de variedades no qual seu pai também colaborava.

Quando completou a escola Normal, por determinação do pai, foi estudar em São Paulo, onde ingressou na Escola de Belas Artes. Foi nesse período que descobriu o gosto e a habilidade para desenho e pintura. Ele lamenta que boa parte desse acervo tenha se perdido. As pinturas e desenhos produzidos naquela época foram descartados tempos depois por sua mãe, que não era uma entusiasta dos desenhos de nu artístico que ele retratava. “Ela não admitia o nu artístico no desenho, então queimou tudo”, lembra.

Nesse período, ele começou a dar aulas em algumas escolas de forma voluntária. Muito estudioso e dedicado, conseguiu uma bolsa de estudos e completou o curso na Escola de Belas Artes. 

Em São Paulo, enquanto estudava, passou a trabalhar em um escritório do governo, no setor de Imposto de Renda, ganhando relativamente bem para época. No entanto, queria ser professor, mesmo que isso significasse ganhar menos. Algum tempo depois, prestou concurso para professor catedrático de desenho geral, foi habilitado e convocado para lecionar em Iguape, no Vale do Ribeira, onde contribuiu para a formação do primeiro ginásio municipal da cidade. 

Ele participava da cena cultural de Iguape para além das aulas no ginásio e chegou a realizar uma exposição na cidade com suas pinturas. Lá, trabalhou até 1960. 

Um raro registro de sua exposição de pinturas em 1958
Cantina Bambu

Além da atuação na educação, o professor Wilson Azavedo colaborou com o desenvolvimento de Caçapava também como comerciante bem-sucedido. Fundou e manteve, entre 1964 e 1972, a Cantina Bambu, que ganhou fama na cidade, funcionando na rua Coronel José Guimarães, em frente ao atual prédio da Câmara Municipal. O empreendimento era uma sociedade com o irmão Domingos Jacomino Azevedo, mas acabava envolvendo o trabalho da família toda.

A histórica Cantina Bambu

A casa servia comidas, vinhos e, em menor quantidade, cervejas. Era ponto de encontro de famílias de Caçapava e até de outras cidades. Além de atrair “cronistas” do cotidiano. O prestigiado jornalista e folclorista Francisco Pereira da Silva, o Chico Triste, de quem ficou muito amigo, era um dos frequentadores assíduos. O professor lembra que ele costumava chegar, pedir uma cerveja e ficar horas conversando sobre folclore, sem tocar na bebida.

Por sua contribuição para a educação e o desenvolvimento de Caçapava, Wilson Azevedo recebeu reconhecimento público em duas ocasiões. Foi homenageado pela Câmara Municipal com o título de Cidadão Caçapavense, em 2005, e recebeu o “Prêmio Herbert José de Souza – “Betinho”, em 2011, concedido a pessoas que se destacaram por ações em prol da comunidade.

Atento às transformações

Ao longo de sua trajetória, o professor Wilson Azevedo acompanhou e se adaptou às transformações da sociedade, sempre empenhado em lançar mão dos recursos disponíveis para melhor ensinar o que sabia a seus alunos. Desde muito cedo, teve acesso a novas tecnologias e sempre considerou tudo muito natural. 

Ainda estudante na Escola de Belas Artes, trabalhava em um órgão público em São Paulo, mantendo contato diário com um dos primeiros computadores a chegar ao Brasil. Não se admirava: aprendia a lidar com o novo e seguia em frente.

Assim, chegou aos 96 anos com uma lucidez memorável. Vive rodeado pelos filhos – Vera, bibliotecária; Maria Regina, fonoaudióloga; ⁠Wilson Azevedo Júnior, eletricista; e Rogério, técnico em Informática – e pelos netos. Para ele, a família é o maior orgulho da sua vida. “Tenho muito carinho por todos eles”, confessa, comovido.

Segue lendo e escrevendo e gosta de fazer “palavras cruzadas” nos suplementos de cultura dos jornais, talvez uma forma de exercitar a memória para não esquecer tantos alunos que passaram por sua vida.

Texto por Maria Bernardino

Fotos: Vinicius Branca e arquivo pessoal

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