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Glauber Bassi

O fotógrafo caçapavense que conquistou o mundo.

Quando o avião aterrizou no aeroporto internacional de Milão-Malpensa, na Itália, o coração do jovem fotógrafo caçapavense acelerou. Não por conta da expectativa da aterrissagem, mas porque naquele momento ele sabia que começava o verdadeiro voo de sua carreira. 

Era o ano de 2006. O recém-formado publicitário Glauber Bassi, com apenas 24 anos, que nunca tinha saído da cidade natal, desembarcou sozinho no coração da Europa, com um objetivo certo: fazer pós-graduação no Istituto Europeo di Design, com foco em moda, e ganhar a cidadania italiana.

“Agora é a hora de fazer a coisa acontecer”, pensou. E aconteceu. 

Hoje, Glauber é chamado de “o fotógrafo das estrelas”. Reconhecido internacionalmente pelas grandes marcas europeias e com um portfólio que inclui celebridades, como Carlinhos Maia, Jade Picon, Nicole Bahls, Caio Castro, Luciana Gimenez, entre outros. É um dos maiores nomes da fotografia ítalo-brasileira.

Ensios com Caio Castro e Val Marchiori.
Carlos Cruz por Glauber Bassi.

Mais do que isso, o olhar diferenciado que ele aplica em seu trabalho ajudou a criar novos famosos, como foi com o modelo e influenciador Carlos Cruz, conhecido como o “rei da favela” em Salvador. 

A partir de uma foto de Glauber, o então moço simples da Bahia ganhou a capa de uma revista em Nova York e, um mês depois, já estava na Europa, convidado para grandes eventos do mundo da moda. 

A mesma parceria rendeu um dos mais belos trabalhos da carreira de Glauber, a exposição “Black Soul”, captada no final de 2021, em Salvador. As fotos valorizavam modelos negros sub-representados na cultura da moda brasileira. A exposição foi tão marcante pelo seu valor estético e social que circulou o mundo, incluindo exibição no consulado do Brasil na Itália. 

Glauber passou de fotógrafo de moda a artista. 

 

A história por trás do sucesso

Glauber nasceu em Caçapava, no ano de 1981. Cresceu na casa da avó, na Vila São João, ao lado dos pais Osmar e Marilza, da irmã Karina, do irmão adotivo Benedito e da diarista Jacira, que foi de quem ele tirou as primeiras fotos, com uma câmera ganhada do pai. 

O menino caçapavense, que brincava de Lego com rolos de filmes na infância, começou a trabalhar aos 14 anos na loja Foto Studio São José, de propriedade do pai, Sr. Osmar Bassi, na Capitão João Ramos. Era o ano de 1995, tempo de câmeras analógicas e filmes de película, revelados em quartos escuros. 

Glauber recebeu muitas broncas do pai ao entrar distraído no laboratório da loja e acender a luz no momento em que acontecia a revelação dos filmes dos clientes.   

Num sábado de manhã, pai e filho receberam um noivo desesperado na loja. O fotógrafo do casamento não havia comparecido. O pai passou a Glauber a missão, e o garoto, então com 16 anos, fez suas primeiras fotos de casamento. 

Diferente do tradicional, ele captou a cerimônia de um jeito novo, com fotos jornalísticas, menos flash e mais sensibilidade ao momento. Em pouco tempo, se tornou fotógrafo de casamento, com agenda cheia para todos os finais de semana. O que ele considera ser seu primeiro business. 

O jovem não rejeitava nenhuma oportunidade. Fotografou coluna social para jornais; trabalhou para a perícia da polícia, com registro de acidentes na Dutra; fez, até mesmo, fotos de defuntos. Nas situações em que o morto era de fora e a família precisava mandar imagens para os amigos e entes queridos que não podiam comparecer ao velório.   

Esteve sempre em busca de novas oportunidades, mas ouviu diversos “nãos” de agências de fora, que o desmereciam por conta de sua origem em cidade pequena. Mesmo assim, ele foi conquistando espaço, assumindo desafios e acreditando no seu potencial. 

Com o dinheiro que ganhava com os trabalhos, Glauber começou suas conquistas financeiras. Comprou um carro aos 18 anos. Ingressou no curso de graduação em Publicidade e Propaganda da Unitau, cuja mensalidade ele mesmo pagava.  

Na faculdade, se tornou parceiro dos professores, levando sua experiência para as salas de aula. Também foi nesse período que veio o convite para trabalhar para o Vilarreal Supermercado, onde fez fotos still life, ou seja, retratando produtos para campanhas publicitárias. 

Aos 19 anos, queria montar um estúdio na loja do pai para fazer fotos produzidas com roupas de época. O pai não acreditou no projeto, mas Glauber não desanimou. Comprou tecidos e mandou confeccionar as roupas por sua conta. 

Durante uma quermesse da igreja Santo Antônio, no Vera Cruz, patrocinada pelo Foto Studio São José, Glauber vestiu dois jovens com as roupas de época e pediu que distribuíssem panfletos do novo estúdio, convidando a população para fazer as fotos produzidas. O que parecia absurdo, se tornou um grande sucesso. Filas se formaram em frente à loja. 

“Eu trouxe o primeiro estúdio fotográfico para minha cidade. Ninguém acreditava. Ali foi onde tudo começou. Onde eu peguei amor pela arte. Ali eu descobri que o que eu queria era fotografar pessoas. Eu amo fotografar gente!”

Dali para frente, ele não parou mais. A agenda estava sempre cheia. Os trabalhos no estúdio se diversificavam e ele passou a fazer outros tipos de fotos, inclusive de bebês e de mulheres grávidas. “Vinha menina grávida de fora para fazer foto comigo”, explica. 

Quando terminou a faculdade, com um know how (conhecimento) invejável de quem já tinha no currículo todo tipo de captação de imagens, incluindo trabalhos para revistas famosas como a Playboy, Glauber percebeu que o Vale do Paraíba tinha ficado pequeno para seu sonho. Ele queria fazer especialização em fotografia de moda na Itália. Vendeu tudo que tinha.  

Capas da Playboy de Portugal e da Suécia fotografadas por Glauber.

Com a ajuda da amiga e jornalista Anna Dennz, organizou uma exposição de mães e filhos para conseguir complementar parte do dinheiro que precisava. Mais um sucesso.

Mudou-se para Milão, levando como mais valioso a coragem e a vontade que tinha de fazer acontecer. Não foi fácil. Teve que aprender rápido a língua do novo país. 

O que tinha reservado para viver na cidade durante um ano se esgotou em um mês. Precisou se reinventar. A experiência como fotógrafo era inútil em uma nova terra onde ele era apenas um mero desconhecido. 

Lavou pratos e fez de tudo um pouco, enquanto dividia um quarto com outras pessoas. Em determinado momento, pensou em desistir e retornar ao Brasil, mas um amigo o ajudou, dando a ele a oportunidade de fazer um estágio em seu estúdio fotográfico. 

Ele agarrou a chance. Começou a fazer um trabalho atrás do outro. Em pouco tempo, montou seu próprio estúdio. 

Glauber em entrevista pra Rede Globo com Patricia Poeta.

Em 2011, cinco anos depois de ter chegado à Europa, ele sofreu um dos momentos mais difíceis: a morte do pai. Sr. Osmar, que não chegou a ver todo o sucesso do filho, mas deixou para ele um grande legado. “A morte dele mudou minha vida. Não só a minha, mas a da minha mãe e da minha irmã. (…) Ele me deixou o amor pela arte. Foi com ele que eu aprendi tudo, a fotografar, os primeiros passos”, fala cheio de saudade.

Seguindo sua trajetória na Europa, Glauber fotografou públicos que nenhum fotógrafo europeu valorizava: travestis e garotas de programa. Enquanto a maioria desqualificava o business, com empatia e respeito, Glauber soube destacar em suas fotos essas pessoas. Prosperou com isso. Ainda assim não ficou satisfeito, queria o mundo da moda, da arte, diversificar as produções. Mudou o foco, se reinventou, e as oportunidades apareceram. 

A carreira deslanchou. Veio o reconhecimento. Trabalhou para grandes revistas como RG, Vogue, Harper’s Bazaar, e marcas como Trussardi, em cenários como do hotel Cavo Tagoo Mykonos, entre outros. Conheceu diversas personalidades do mundo da moda, e cobriu eventos importantes, como a Fashion Week, em Milão. 

Campanha para a marca italiana Trussardi.

Dezesseis anos após ter concluído o curso no IED, veio a coroação. Foi chamado para realizar um workshop motivacional na mesma escola. 

“Eles queriam que eu transmitisse o meu amor pela arte.”, disse. Transmitiu. Fez com que os alunos saíssem inspirados e com books de fotos prontos dos trabalhos realizados. A Itália se encantou com a sua história.  

Intercalando temporadas no Brasil e na Europa, Glauber viajou para diversos países e trabalhou em diferentes projetos. Porém, nunca abandonou suas origens e sempre valorizou a família. O sucesso foi alcançado. Mas os sonhos se renovam. Agora é o momento de sonhar em estar integralmente ao lado da mãe, com quem sempre teve uma forte ligação. 

Olhar para o outro

Um talento construído a partir da sensibilidade de perceber pela imagem a essência do outro, assim pode ser descrito o diferencial do fotógrafo. Uma percepção que vai além do trabalho. 

Em uma temporada no Brasil, em 2019, Glauber foi convidado para fazer uma campanha no litoral de São Paulo. Na sessão de fotos, ele percebeu um modelo negro retraído, que mal o encarava. Foi conversar com o rapaz. 

Descobriu que ele era um jovem mecânico, que, para estar ali, tinha vendido sua bicicleta em Salvador e viajado dois dias de ônibus, apenas apoiado no sonho de se destacar como modelo e aproveitar a oportunidade de fazer fotos com Glauber, que já era referência internacional no mundo da moda. 

Glauber se comoveu com a história. Pediu que o rapaz aguardasse até o final da sessão e fez fotos exclusivas com ele. Uma das fotos virou a capa da revista Desnudo Magazine, de Nova York. Algumas semanas depois, o então modelo Carlos Cruz estava em Milão na Europa. “Se não fosse pela sua foto, eu não estaria aqui”, foi a frase que Glauber ouviu dele.

A amizade entre os dois gerou o convite de Carlos para Glauber ir à Bahia fazer fotos do povo negro. O que inicialmente era um trabalho pequeno, se tornou uma grande referência. Foram mais de mil inscrições para o projeto e três dias de seleção, com Carlos em Salvador e Glauber na Europa. 

Entre os selecionados, estavam travestis, modelos curve (com corpos fora do padrão da moda) sem distinção de gênero. O ensaio fotográfico foi produzido em pontos icônicos da capital, como o Pelourinho e Gamboa e construiu imagens que dialogam com a diversidade cultural e o racismo estrutural. 

“Eu quis mostrar um povo, uma raça, uma religião e foi um projeto que mudou a minha vida, porque antes disso as pessoas me viam como um fotógrafo de moda e não como um artista. Eu trouxe alma para o projeto”

A exposição foi inaugurada na Galeria Roberto Camasmie, em maio de 2022, em São Paulo; passou pelo Hotel Fasano, em Salvador, em 2023, e ganhou duas vezes espaço no consulado brasileiro em Milão, em 2024, entre outros locais, na Europa e no Brasil.   

De todos os espaços culturais onde foi exibida, o mais emocionante para o fotógrafo foi a exposição no Ruy Barbosa, em Caçapava, em 2025. 

“Para mim foi uma emoção muito grande estar lá no Ruy Barbosa, porque foi onde eu estudei. Eu plantei o Pau Brasil que tem lá. Eu era um menino humilde, cheio de sonhos e voltar para lá com uma exposição gigante. Juntou fila de gente para tirar foto comigo. Eu vi que consegui tocar em muita gente que se espelha em mim”,

Bem acompanhado em publicação da revista CARAS.
Bem acompanhado em publicação da Revista CARAS.
Texto por Elisvânia Rodrigues

Fotos: Vinicius Branca, Glauber Bassi e arquivo pessoal

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