
A artista Ana Sales ganhou fama com seus bonecões coloridos retratando personagens do imaginário caipira. Totalmente inspirada pelas tradições da cultura regional, aprendeu ofícios como costura, pintura, bordado, escultura, modelagem em argila, culinária típica e produção cultural. Com essas habilidades, ela dá vida e alimenta a confecção dos alegres “Bonecões da Mantiqueira”.
Nascida na região central de Caçapava, Ana Sales teve contato muito cedo com o universo da cultura popular. Cresceu frequentando espaços da zona rural, participando intensamente das celebrações. O cenário era a fazenda da avó materna, Dona Ofélia, na região da Serra das Coletas, onde costumava passar longas temporadas. A casa estava sempre cheia. Por lá passavam padres, bispo, pessoas que recolhiam as prendas para os leilões.
Ali ela vivenciava o clima das festas que aconteciam no largo da igreja, sempre marcadas por rodas de violas, sanfonas, cantorias, distribuição de doces e grupos de Moçambique e Folias. Os doces confeccionados com os frutos do pomar da avó eram apurados em grandes tachos, no fogão a lenha, e guardados em caixas de madeira, já que não havia geladeira. Eram servidos como sobremesa durante as reuniões familiares e distribuídos nas festas.
Inspirada nessas memórias, ela recriou a receita do doce caseiro de abóbora e banana feito em grandes tachos, que batizou como “Doce da Maria Rapadura”. Com essa iguaria costuma representar Caçapava em eventos de culinária típica, como o Revelando SP.
Os pais de Ana também eram festeiros, acolhiam e conviviam com os grupos de cultura popular. Filha do produtor de cana Benedito Ortiz Sales, um dos pioneiros na plantação de cana de açúcar em Caçapava, era a mais nova de uma família de quatro filhos, ao lado dos irmãos José Osnir, Lúcia e Vera.
Ela gostava de acompanhar o pai em suas andanças pela roça e lembra do envolvimento dele com as manifestações da cultura popular, improvisando transporte para os moradores irem às festas.
Foi nesse ambiente festivo e de compartilhamento de sabres, que ela cresceu e passou a observar os mestres, a recolher os ensinamentos e a reproduzir em sua arte as impressões do que via, especialmente o gosto pelo trabalho em coletivos.
Uma artista autodidata e multifacetada
Ana Sales se considera uma artista autodidata e com habilidade para os trabalhos manuais. De modo natural, aprendeu quase todas as artes. Suas criações passam por costura, bordados, tear, escultura em argila, figuras de gesso e, principalmente, a produção dos Bonecões. A mãe, Maria José Nogueira Barros Sales, era costureira conhecida e com ela aprendeu o ofício.
Mais tarde, no início dos anos 90, a habilidade com corte e costura fez com que Ana Sales conquistasse um contrato como fornecedora de uma grande rede de varejo de moda, com unidades em vários países. Fazia a criação de peças infantis e articulava toda a logística de distribuição de sua produção, até chegar ao estoque da empresa. À medida que aumentava a demanda, foi ampliando sua rede de parceiros, chegando a terceirizar o trabalho com outras costureiras.
Ao final de dez anos, no entanto, avaliou que não tinha vocação para trabalhar com produção em larga escala e encerrou o contrato. Sentia falta das pausas para se dedicar à arte e fazer tudo com mais calma, especialmente usufruir do convívio com os artistas populares.
Espaço Cultural Bicho Preguiça e o primeiro boneco
Poucos anos antes de encerrar o contrato com a rede de varejo, em 1998, Ana Sales e o então marido, João Henrique, adquiriram um sítio na Rodovia do Livro, com a intenção de transformar em um espaço cultural multiuso com restaurante de comidas típicas e palco para apresentações artísticas.
Para celebrar a nova etapa, ela organizou ali uma festa junina. Nessa ocasião, surgiu o que considera ser o seu primeiro boneco: um cavalinho confeccionado a partir de uma estrutura de bambu, feito de forma completamente intuitiva, já que não seguiu nenhum projeto específico.
Com arquitetura inspirada na natureza, o Espaço Cultural Bicho Preguiça foi criado para oferecer atividades de cultura e meio ambiente, unindo natureza e arte. Aos poucos foi se transformando numa espécie de ponto de encontro de artistas populares da região.

Ali aconteciam festivais culturais com muita música, danças e mostras de artes. A programação infantil também fazia parte das ações. “Eu sentia a necessidade de interagir com as crianças, dar acesso à cultura, então oferecia atividades lúdicas, teatro de fantoches. Muitas crianças não tinham acesso ao teatro”, relembra. “Para um artista não existe realização maior”. Atualmente, o espaço está fechado para reforma.
A arte de dar vida a bonecos gigantes
À medida que Ana Sales coordenava as atividades do espaço, foi ampliando sua atuação no universo da cultura popular. Para isso contou com a ajuda de grandes mestres e pesquisadores, como a professora e estudiosa de folclore Darcy Breves de Almeida, membro do Centro de Estudos da Cultura Popular (CECP), organização social de São José dos Campos que tem como finalidade pesquisar e difundir toda a expressão da cultura popular.
Foi a partir de um convite da professora Darcy que Ana Sales conheceu e passou a participar das reuniões do CECP e ter contato com os principais nomes da cultura da região. Entre eles, a folclorista Ângela Savastano (1945-2025), uma das principais idealizadoras do Museu do Folclore de São José dos Campos, e o escritor e folclorista Toninho Macedo, um dos criadores do Programa Revelando São Paulo. “Eu fiquei deslumbrada com tanta informação e falei: é isso que eu quero”, explica.
A partir daí, começou a frequentar com Darcy Breves os espaços e festivais de cultura popular, como o Revelando São Paulo, um grande encontro da cultura tradicional, reunido culinária típica, artesanato e manifestações como os cortejos de bonecões. “Quando eu vi os bonecões, eu fiquei doida”, diz ela.
Foi numa edição do evento na Capital que conheceu o artista plástico, ator e bonequeiro Eliézio dos Santos, o Tatau (1971-2024), também de São José, que já tinha uma trajetória na arte de confeccionar bonecões e com quem iniciou uma parceria. Durante o evento, começaram a fazer um dos seus personagens mais conhecidos: a Maria Rapadura, que passou a fazer par com o personagem Zé Taiada.

Ana Sales explica que essa dupla de bonecos é inspirada no projeto da artista e amiga Flávia Celeste, que alguns anos antes havia iniciado a produção de um personagem com o mesmo nome, Maria Rapadura.
O primeiro grande lote de bonecões de Ana Sales foi produzido para a Secretaria de Cultura de Caçapava, em 2006, a partir de pesquisas da professora e então vice-prefeita Darcy Breves, que na ocasião desenvolvia um trabalho de identificação do patrimônio cultural imaterial de Caçapava e tinha o desejo de retratar na forma de bonecões personagens que marcaram a história e a cultura popular da cidade.

O cortejo dos bonecões integrou por muitos anos a programação do Carnaval da cidade e foi incorporado ao acervo do Município.
Ana e os Bonecos
Ao longo dos anos, Ana Sales foi aperfeiçoando sua técnica, testando materiais e ampliando a produção. Atualmente, utiliza bambu tratado para a confecção da estrutura do boneco, garantindo maior durabilidade à peça, e papel para o revestimento. Já o molde da cabeça é feito em isopor. Cada boneco pesa em média sete quilos e tem cerca de 1,60 metro de altura. Quando vestidos, chegam a medir 3,50 metros.

Além da produção dos personagens, cria e costura os figurinos de todos eles. Os fios para os cabelos também são feitos por ela, em tear. Para ativar a circulação dos espetáculos, passou a cuidar também da produção.
Hoje, ela contabiliza cerca de 150 bonecos em seu acervo e mantém três espetáculos no repertório para apresentações em diferentes ciclos no ano: a charanga no Carnaval; a Quadrilha de Bonecões da Mantiqueira durante as festas juninas e um cortejo nas cantorias de Reis.
Para colocar na rua cada um desses espetáculos, emprega uma equipe de cerca de 25 pessoas, entre bonequeiros, produção, músicos, apoio e logística. Acostumada a trabalhar em coletivos, transita com facilidade por esta estrutura com profissionais de várias cidades da região. Entre elas Caçapava, Santa Branca, São José dos Campos e Monteiro Lobato. “No grupo um depende do outro, todo mundo se doa, se dedica”, diz ela. “Só tenho gratidão por trabalhar com tanta gente boa”.

Os bonecões já se apresentaram em mais de 40 cidades de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, encantando espectadores por onde passam. O trabalho já lhe rendeu grandes emoções. Durante um evento em São Paulo, convidou um garoto em situação de rua para sair no cortejo conduzindo um bonecão. Ele aceitou e, ao final da apresentação, contou para ela que aquele tinha sido o dia mais feliz da vida dele. Ela ficou comovida com a força da arte que produz.
Além de ministrar oficinas em diferentes espaços, já integrou a programação de grandes eventos na Capital, como Revelando São Paulo, Virada Cultural SP, São João de Pernambuco – Centro de Tradições Nordestinas (CTN), Sabor SP, Forró da Garoa, Virada Cultural do Pertencimento, Festival Mário de Andrade e Fórum SP Afro Brasil.

Participou também de ações e programas de televisão como o “Arraial Arte na Rua” (Rede Globo) e os programas “MasterChef” (Band); “É de Casa” (Globo), e “Santa Receita” (TV Aparecida).

Vive atualmente numa “casa-ateliê” no Jardim São José, em Caçapava, habitada por bonecões em todos os cômodos. Ana Sales, ou Ana dos Bonecões, como é comumente chamada, é mãe de duas filhas: a biomédica Renata e a designer de interiores Flávia, e de um filho, Bruno, que se dedica à pesquisa com bambu. Tem três netos: Pedro, Francisco e Joaquim. E pode-se afirmar que é “mãe” afetiva de 150 bonecões.
Texto por Maria Bernardino
Fotos: Vinicius Branca e Arquivo pessoal