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Felipe Vital

Um Taiada na liderança do skate nacional.

Quando andava de skate no corredor do casarão dos avós, na Ladeira São José, em Caçapava, o menino Luiz Felipe Barbosa Vital não imaginava onde poderia chegar com o brinquedo que ganhou aos 9 anos, do padrinho Aluísio, principal incentivador de sua jornada.

Hoje, aos 54 anos, ele é referência no cenário brasileiro do skateboard, seja comandando competições ou organizando eventos inovadores. O Big Pool Day é um exemplo das muitas realizações dele.

Empreendedor desde a adolescência, ele combinou talento com senso de oportunidade, criou marcas, organizou eventos e hoje atua ao lado das maiores empresas do skate mundial — sem nunca deixar de apostar na cidade onde cresceu.

Primeiros passos

Em Caçapava, Felipe foi menino livre, criado brincando na rua. Passou a infância e adolescência entre o Centro e o Jardim São José.

Viveu até os 6 anos no Centro, entre a casa dos pais, no “Beco do Santander”, e a dos avós, na Ladeira São José.  Depois, mudou-se com a família para a casa do Jardim São José, onde mora até hoje. 

A extinta casa da Ladeira São José.

A cidade era dividida simbolicamente pela linha férrea em duas zonas, e ele vivia o contraste desses cenários. O Jardim São José ficava do lado mais popular, ainda com poucas casas, ruas sem asfalto e áreas de muito mato – território conhecido como “pra baixo da linha”, onde ele mantinha grande número de amigos. Já a casa dos avós, “pra cima da linha”, no centro da cidade, “era outro mundo”. 

Esses espaços marcariam sua vida e despertariam um profundo sentimento de apego às suas raízes, que ele preserva até hoje.  

Antes de ganhar as ruas e explorar, com seu skate, as possibilidades que a cidade oferecia, era nos corredores do casarão da Ladeira São José que se divertia. A partir dali, o skate passaria a definir suas escolhas e o lançaria numa longa jornada de trabalhos e conquistas.

Foi na Praça da Bandeira que teve contato com outros skatistas de Caçapava. “Sempre houve uma galera mais antiga aqui, pessoas mais velhas que eu. Eles construíam rampas e andavam na praça, que tinha só um canto que dava para andar”, lembra. “Era uma coisa bem underground, bem hippie. Comecei vendo esses caras. Eu ia à praça, meio acanhado, e ficava ali vendo”.

Depois, foram chegando outros skatistas que se tornariam seus grandes amigos. Entre eles, Adalberto Luís Honório, o saudoso Beto Olliegator, e Marcelo Grélo. Juntos, passaram a movimentar o cenário do skate em Caçapava e a participar de eventos em outras cidades.

Marcelo Grelo e o saudoso Beto Olliegator.

Guaratinguetá mantinha uma cena ativa no início dos anos 80. Era um polo do skate brasileiro e sediava eventos relevantes. Felipe e os amigos começaram a participar. 

Nos eventos, ele percebeu que era importante ter uma marca que identificasse seu grupo. “A gente participava sem uniforme, e lá todo mundo tinha uma marca. Era uma coisa forte”. Assim, criou sua primeira marca, “F*ck”, que depois se tornou “Delírio”.

Nessa época, aos 15 anos, queria fazer silkscreen e começou a ir para São Paulo em busca de referências. Passava as férias na casa do tio, que morava perto da Paulista e o levava para conhecer lugares e pessoas que marcavam a cena na época e que se tornariam referência para ele.

Um desses lugares foi a Kaos, fábrica de shapes. “Numa dessas, conheci o Marcola e comecei a fazer algumas coisas com ele”, conta.

Na ocasião, ele já entendia que seu grande sonho era contribuir para criação de uma cena forte para o skate na região onde nasceu. Muito mais do que competir, queria movimentar o cenário.

Posso!  

Aos 17 anos, começou a desenvolver “as coisas da Posso!”, marca que pouco depois se tornaria uma de suas principais criações, com Skate Shop e, mais tarde, Skate Bar.

Durante o período em São Paulo, conheceu os IbiraBoys, grupo de skatistas paulistanos que marcou época andando na marquise do Parque Ibirapuera, nos anos 70 e 80, e que reunia nomes como Fábio Bolota, Alex Pois É e Álvaro Por quê?

“’Posso!’ era uma gíria muito deles, principalmente do Bolota, Pois É e Por quê?. Significa “Deixa eu ir”, explica ele.

Já com a ideia da Posso! em desenvolvimento, foi encontrar o grupo e “pedir autorização” para batizar a marca com o nome da gíria que eles usavam. 

“Nessa época, já estava fazendo curso intensivo na Kaos, aprendendo a fazer shape e silkscreen, então já tinha um conhecimento”, afirma.

Os IbiraBoys gostaram da ideia de a gíria Posso! dar nome à marca, por ser um nome brasileiro. E assim surgiu a Posso! Skate Shop. “Fazia camiseta, boné, vendia bem. Montei a marca pensando em ser a nossa crew”, diz ele.  

Posso! Skate Bar

Na sequência da loja, fundou, em 1990, a Posso! Skate Bar, reunindo no mesmo espaço bar, loja e uma mini rampa nos fundos. Em pouco tempo, o bar se tornou um grande sucesso.

Para colocar a ideia em prática, contou com a ajuda de amigos e da família. O ponto pertencia ao avô, o professor Aluísio França Barbosa, que cedeu para ele executar a empreitada.  “Eu falei pra ele que queria manter a lojinha, ter o bar e uma mini rampa”, lembra.

O espaço precisou ser completamente reformado. Derrubaram as paredes, reconstruíram tudo e adequaram para ter espaço para a mini rampa, a primeira construída por aqui. Depois, construíram os dois barracões que completavam o bar. 

Assim, surgiu o primeiro “skate bar” do Brasil, na calçada em frente ao prédio do 6º BIL (Batalhão de Infantaria Leve), no Centro de Caçapava. 

A Posso! Skate Bar

Muito frequentado pela nata do skate de São Paulo e do Rio de Janeiro, além dos moradores da região, o espaço ganhou fama e passou a ser referência na cultura skateboard. 

A programação musical abria espaço para grupos de hardcore e punk rock. Sua então esposa Vânia, uma brasiliense, ajudava nos contatos com as bandas e na produção dos shows. 

A cozinha da casa era outra atração à parte. Era comandada pelo tio e pelo pai, William, que preparava o famoso “bife na pedra”, estrela do cardápio do bar – uma picanha assada e servida sobre uma pedra quente.

A mini rampa era frequentada por skatistas renomados. Toda essa combinação fazia da Posso! Skate Bar um espaço especial.

O bar fez história e colocou Caçapava na rota de shows das bandas mais relevantes da cena independente brasileira e internacional da época. Por lá passaram nomes como Ratos de Porão, Planet Hemp e Pavilhão 9, além de atrações internacionais, como Andrew Tosh, filho do ícone do reggae Peter Tosh. “O filho do Peter Tosh tocou no meu bar, ao lado da cozinha do meu pai”, lembra ele.

Marcelo D2, Pavilhão 9 e Ratos de Porão.

As domingueiras eram uma atração especial, sempre lotadas e com público, em sua maioria, de fora da região. À medida que aumentava a fama do espaço, Felipe enfrentava a resistência dos vizinhos.

Eles reclamavam do barulho e da movimentação. Semanalmente, ele era convidado a prestar esclarecimentos no Fórum, sempre acompanhado pelo avô Aluísio, responsável por sua defesa.

“Mesmo com o sucesso do bar, sempre foi difícil juntar grana”, diz ele. Havia períodos de sazonalidade, especialmente na época das festas juninas, o que deixava o bar vazio. 

Ao final de 12 anos, resolveu fechar e seguir outro caminho. A experiência que adquiriu ali foi a sua melhor faculdade. Depois que fechou o bar, a identidade Posso! retornou como marca de roupas e acessórios para skate.

Virada de Chave

O encerramento das atividades da Posso! Skate Bar marcou uma virada de chave na vida de Felipe. A ideia era ir morar na Califórnia, mas ele precisou mudar os planos ao descobrir que seria pai. Entendeu que aquele era o momento de sair de Caçapava e mudou-se para São Paulo, iniciando uma nova fase na carreira e uma jornada de grandes conquistas.

Trabalhando com grandes marcas de skate, muitas delas internacionais, Felipe percorreu os principais países que fomentam o esporte, chefiando equipes de skate e produzindo material de marketing.

Depois de passar por várias marcas consagradas, tornou-se sócio do grupo de marcas G5 Corp., uma empresa focada no mercado de skate e streetwear, que atua na criação, produção e distribuição de vestiário e acessórios.

Ele também é sócio do STU (Skate Total Urbe), maior plataforma de skate do mundo, que realiza o Circuito Brasileiro, com uma infraestrutura e relevância que só acontece no Brasil. Felipe é gestor de toda a plataforma e tem como sócios André Barros, pai do skatista Pedro Barros, e Diogo Castelão. “No ano passado, a gente desbravou o mundo: criamos o nosso circuito mundial e fomos para Suécia fazer o campeonato”, lembra ele. “Um monte de brasileiros indo para a Suécia fazer um campeonato”.

STU em Varberg – Suécia | Foto: Julio Detefon

Felipe Vital é também diretor esportivo da Confederação Brasileira de Skate – CBSK.  

Mesmo com tantas atividades pelo mundo, ele não se afasta de Caçapava. “A frase da minha vida, que eu falo para os meus filhos e para quem é próximo, é: ‘raízes e asas’. Acho que tudo na vida se resume a isso. É você dar valor às raízes, ter seu pé no chão, que vai voar tranquilo”, afirma. 

A saída de Caçapava, segundo ele, foi motivada pela necessidade de oferecer mais oportunidades e qualidade de vida aos filhos. Felipe é pai de Matheus, que hoje é empreendedor em diversos segmentos e coordenador estrutural do STU; e de Maria Paula, formada em Nutrição e administradora da BBS (Bara Board School), escola que mantém com o marido em São José dos Campos, com mais de 150 alunos.

Os filhos Maria Paula e Matheus, e o recém chegado netinho.
Big Pool

A história da ligação de Felipe Vital com Caçapava ganhou um novo capítulo em 2024, com a inauguração da Pista de Skate Big Pool, na Vila Centenário, e a retomada do evento Big Pool Day. 

Considerada a primeira “piscina skatável” pública do Brasil, a pista foi construída pela Prefeitura. O Big Pool Day é considerado o maior evento raiz de skateboard do Brasil, reunindo skatistas de elite e amadores de destaque.

Durante quatro edições, em 2014, 2017, 2018 e 2019, o Big Pool Day foi realizado na piscina de um clube de Caçapava, alugado para o evento, e que reunia skatistas de várias partes do mundo.

Edição de 2019 do Big Pool Day. A última na extinta piscina do clube.

Embora tenha sido um evento de extremo sucesso, a diretoria do clube optou por descontinuar a realização, alegando que a piscina, que existia desde 1976, seria desativada logo após a edição de 2019.

Felipe Vital e os sócios ainda tentaram negociar para fazer a edição de 2020, primeiro ano do skate nas Olimpíadas, mas o clube não voltou atrás em sua decisão. A ideia, segundo ele, era chamar os atletas que iriam às Olímpiadas para participar do evento e, no final, todos quebrariam a piscina juntos, num gesto simbólico.

Assim, encerrava-se o ciclo do Big Pool Day no clube. Resiliente, ele foi pensar em alternativas.

Algum tempo depois, convidado pela Prefeitura a participar, como representante do esporte, das tratativas para a reforma da pista de skate da Av. Brasil. Ele conta que sugeriu que, em vez de reformar aquela pista, a verba fosse empregada na construção de uma mini rampa mais moderna. Como contrapartida, desenvolveria o projeto de street para o espaço, realizando no local uma etapa do campeonato brasileiro de mini ramp que organiza. 

Na ocasião, a sugestão dele não foi aceita. Mais tarde, porém, foi convidado pela Prefeitura a procurar uma área pública para, finalmente, construir a mini rampa. Enquanto isso, o município buscaria os recursos necessários para a obra.

Nesse meio tempo, em uma viagem a Porto Alegre, pediu o projeto da pista a Frederico Cheuiche, arquiteto e sócio-diretor da Spot Skatepark, uma das maiores fabricantes brasileiras de pistas de skate. Frederico perguntou para onde seria a mini rampa, e Felipe informou que seria para Caçapava. O arquiteto lembrou que Caçapava é a “terra da Big Pool” e falou: “Que pista de street, cara!  Você tem que fazer a Big Pool”. 

A partir daí, Felipe seguiu com as tratativas e a construção da Big Pool de Caçapava começa a se concretizar.

A Prefeitura buscou os recursos para a obra e a inauguração da primeira “piscina skatável” pública do Brasil ocorreu em 2024, com a realização da nova fase do Big Pool Day, agora em espaço próprio. O evento contou com a presença de skatistas convidados, programação musical e foi uma grande celebração do skate.

A nova Big Pool. Dessa vez, uma pista pública e inédita no Brasil.

Em 2025, a edição do Big Pool Day foi um marco para Caçapava, com transmissão ao vivo pela Rede Globo para milhões de pessoas. 

Mais uma vez, Felipe Vital colocou Caçapava no mapa do skate nacional, consolidando sua trajetória, iniciada a partir de uma inquietude que o colocou no topo da liderança e da organização do skate brasileiro, com reconhecimento mundial.

Texto por Maria Bernardino

Fotos: Vinicius Branca e arquivo pessoal

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