
No ponto de ônibus para a escola do filho, ela percebeu crianças com roupas rasgadas e chinelos gastos, acanhadas e inseguras à espera do transporte escolar. A maioria sentiria um pesar pela situação, mas aceitaria a desigualdade estrutural comum em nosso país. Mas ela não é a maioria, é sobrevivente de condições similares.
Naquele dia, a empatia não ficou só no coração, Simone decidiu que precisava fazer algo. Fez. Levou as roupas do próprio filho, mobilizou amigos, conseguiu doações e montou uma mesa de roupas, sapatos e material escolar para doação, no mesmo ponto de ônibus.
No início, as mães, acostumadas a serem invisíveis, tiveram receio de olhar as peças. Passavam desconfiadas. Tinham vergonha de mostrar suas necessidades em público. Mas, aos poucos, descobriram que aquele era um gesto de quem queria ajudar. Aceitaram a ajuda.
A mesa precisou ser duplicada e depois transferida para a garagem aberta da casa de Simone. A ação se tornou um hábito e começou a abrir um portal.

As famílias que vinham buscar as roupas deixavam para trás meninos e meninas, pendurados nas colunas da garagem para assistirem aos desenhos na TV, que Simone colocava para o filho, enquanto trabalhava. Foi uma questão de tempo. Logo as crianças ganharam espaço no sofá da sala.
Para além da curiosidade e do encantamento infantil, Simone enxergou a fome, a mesma que ela havia conhecido na infância.
No sofá acolhedor, os pequenos também ganhavam pipoca, às vezes um pedaço de bolo, um copo de refrigerante. Sobretudo, ganhavam amor e afeto, porque também há fome dessas coisas no mundo.
Foi assim que despretensiosamente, sem planejamento, apenas movida pelo coração e a vontade, ela criava, há seis anos, o projeto Portal do Tijuco Preto, na região rural de Caçapava, onde os caminhos eram difíceis e as possibilidades limitadas.
Portal Tijuco Preto: impulsionar sonhos
Hoje, são 248 famílias atendidas por mês e 170 crianças, sendo 72 atendidas na casa de Simone, que passou a contar com uma estrutura no quintal voltada para o projeto.
O quintal se transformou em um grande galpão, com piso preparado para capoeira, palco para teatro e cinema, biblioteca, sala de aula, sala de saúde e uma sala de informática com vários computadores. Ali, além das aulas de informática, Simone recebe anonimamente mulheres em situação de agressão e assédio para fazerem audiências em videochamadas.

O projeto ganhou o status de associação, mas não recebe verba pública, apesar de ter sido certificado como Ponto de Cultura, que permitiu a destinação de R$ 17.000,00, uma única vez. O dinheiro foi investido na estrutura do cinema para as crianças. Os demais recursos chegam por meio de doações e contribuições de voluntários, que, assim como Simone, têm a mesma vontade de ajudar.
Médicos, psicólogos, policiais, pedagogos, artistas, padres, pastores, “um conjunto de amigos”, como ela costuma dizer, que doam um pouco do seu tempo para dar aulas de reforço, palestras, atendimentos, tudo que estiver ao alcance com o objetivo de fortalecer o outro.

De acordo com Simone, o projeto atua fazendo com que as pessoas conheçam direitos e deveres. “As pessoas têm direito às coisas, mas elas também têm deveres. Elas têm o dever com a educação, com a saúde, o dever de ser respeitoso com as pessoas. (…) De trabalhar e de ter autossuficiência para sua casa, não depender do sistema”, explica.
Possibilita que os participantes encontrem seu potencial, ajudando a descobrir e valorizar seus talentos. Também orienta e dá suporte às necessidades materiais das famílias até que consigam se reerguer das situações vulneráveis. Da criança ao idoso, atende a todos.
“Eu queria ter uma ação que não tivesse vínculo com nenhuma igreja ou com política. Eu ficava incomodada com ações com rótulos desse ou daquele grupo, porque excluíam, nem todos podiam participar”, explicou Simone.
Para ela, que estudou apenas até o primeiro ano do Ensino Médio, as ações de educação são o grande destaque do projeto.
“O preconceito era muito grande com quem se formava ou crescia no bairro. Os pais educavam para aprender a ler e escrever. Depois disso, achavam que estava apto para trabalhar no canavial, carregando caminhão, na colheita do tomate, da laranja… muito comum aqui. (…) Hoje (com o projeto) eles acham que são capazes de deixar o filho estudar até o final”.
A mudança veio por meio do apoio material, mas principalmente da conscientização e do esforço para valorizar o conhecimento.
Os frutos desse trabalho podem ser percebidos com turmas maiores de alunos formados na escola do bairro. E também pelos jovens que estão entrando em grandes corporações como a Embraer e que conseguem passar em vestibulares e ingressar na faculdade.
Com esse mérito, as ações do Portal Tijuco Preto passaram a ser conhecidas. Mas a história desse projeto começou a se formar bem antes daquele ponto de ônibus: na própria trajetória de Simone.
Da infância difícil ao amor pelas causas sociais
Nascida em uma família caçapavense de seis filhos, Simone da Silva Moreira estava entre os mais novos dos irmãos, dos quais dois tiveram graves problemas de saúde. Uma irmã mais velha que ela, com hidrocefalia, e um irmão mais novo, com paralisia infantil.
Por conta da doença dos filhos, a mãe era ausente, estava sempre buscando atendimento e cuidando dessas crianças. Já o pai, moldado por uma série de preconceitos, culpava a mulher pela situação e buscava refúgio no álcool, tornando a convivência cada vez mais difícil entre eles.
Quando Simone tinha apenas 4 anos, o pai abandonou a família, que passou a viver com dificuldades.
Foi nesse período de ausências que Simone conheceu duas faces da mesma moeda, a dor de quem não tem o que comer e a solidariedade de quem pode ajudar.
“Passamos fome e muitas dificuldades. A gente realmente ia na escola para comer! A comida era bem escassa. Quem auxiliava era a comunidade, a igreja”, explica. E a então diretora da escola, Darcy Breves, a quem ela faz questão de citar e toma como inspiração.
A mãe trabalhava de faxineira e dividia o tempo entre os filhos doentes. A vulnerabilidade que os cercava e a falta de proteção permitiram que, com 10 anos, Simone fosse vítima de abuso sexual.
“Muitas vezes eu perguntei para Deus porque eu estava passando por tudo aquilo. Eu pedia muito que Deus me levasse. Foi muito difícil. Hoje eu sei que Deus só me deu escudos. Ele estava criando uma pessoa para ser forte”, confidenciou ela.
Mesmo diante do sofrimento, Simone cresceu sem ressentimentos. Devolveu o abandono do pai com sua presença.
Na adolescência, costumava visitar e buscar o afeto paterno na casa em que o pai morava com outra mulher. Apesar de não ser bem acolhida, ela manteve esse contato durante toda a vida. “Minha mãe sempre pregou o perdão”, explica.
Anos depois, já casada, quando ele ficou doente por conta do álcool, ela o trouxe para morar em sua casa, onde ele permaneceu por dois anos. Voltou saudável para sua vida por mais alguns anos, até retornar novamente doente à casa da filha, em seus anos finais, quando ela se tornou sua cuidadora.
Simone começou a trabalhar bem cedo. Aos 10 anos, ajudava a mãe, dona Eunice, como diarista. Dos 14 aos 17, já estava dentro de fábrica, trabalhando em lanchonete. Depois foi para o comércio.
Em 1994, aos 18 anos, voltou para a indústria, onde permaneceu por mais de 20 anos, se tornando chefe de cozinha industrial. Ela só parou de trabalhar para cuidar da mãe doente e da irmã acamada, no ano de 2020, mesmo ano em que começavam as primeiras ações do projeto.
As causas sociais apareceram na vida de Simone com sua participação na igreja mórmon, aos 18 anos, onde ela já atuava em projetos como “Mãos que ajudam”.
Em 2020, quando as primeiras sementes do Portal Tijuco Preto começavam a germinar na garagem da sua casa, ela se desvinculou da igreja porque queria “fazer um projeto sem bandeiras”, que todos pudessem participar.
A família e o legado
A empatia de sentir a necessidade e a dor do outro não teria levado à ação se não fosse o apoio da família que Simone construiu.
Com 25 anos, Simone se casou com Wagner, aquele que seria seu grande companheiro na vida e nas ações sociais.
“Meu marido é meio doido também. Ele colocou um lençol enorme na sala, arrumou um projetor e começou a passar filme para as crianças”, explica sobre o apoio do marido no início do projeto.
Wagner também é o responsável por manter em dia as contas da casa que se tornou a sede do projeto.
Seu primeiro salário de PLR em fábrica, ele disponibilizou para realizar o sonho da esposa: uma piscina com churrasqueira. Mal sabia ele que esse sonho já tinha mudado. No lugar da área de lazer para a família, Simone pediu uma cobertura para abrigar as crianças que já não cabiam na sua sala.

“Meu marido fala assim: Você não tem sonhos, você realiza o sonho das pessoas. Mas eu estou feliz assim, eu gosto do que eu faço”, disse Simone.
Os três filhos do casal: Juliana, Júlia Maria e Wagner e os netos: Davi Henrique, Miguel, Jade, Rebeca e Sara são um orgulho para ela. Mais que isso, são inspiração para sua vida e apoiadores do projeto.
As filhas mais velhas ajudam diretamente nas ações e eventos que a mãe realiza, como as feiras e saraus literários, em que as crianças atendidas se tornam protagonistas, realizando peças de teatro e outras apresentações.
“Eu acho que consegui deixar um legado para minhas filhas de bondade e de superação. Eu sei que é difícil para todo mundo. Ninguém tem vida fácil. Cada um tem sua história e a questão é transformar essa história. Não deixar que ela se torne amarga a ponto de que a gente não possa fazer algo de bom para alguém”, conclui a mulher que transforma a vida de outras pessoas.


Texto por Elisvânia Rodrigues
Fotos: Vinicius Branca, Paulo Oliveira e arquivo pessoal