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Cidinha Marinho

A atriz que mobilizou a comunidade do Maria Elmira.

O ano era 1972. A menina de 12 anos, filha dos caseiros da fazenda, entrou em casa encantada. Na escola da cidade, ela tinha assistido algo que a impactara: um teatro de fantoches. Não sabia muito bem o que era aquilo, nem o que significava teatro, mas a novidade despertou nela uma vontade que a acompanhou durante todo o dia na fazenda. 

No início da noite, após o jantar, quando a família descansava na sala ouvindo as canções e notícias em um rádio de pilha, a menina despertou. 

Observou a velha casa sem luz elétrica, as paredes desgastadas e o vão entre a parede e o teto que havia em todos os cômodos. Entrou em seu quarto. A parede era a mesma da sala. Pensou por um instante. 

Era preciso ser um pouco gigante para alcançar o espaço. Mas nada que uma estrutura feita de bancos não pudesse resolver. Empilhou cadeiras no quarto. Pronto! O palco estava montado.

Subiu acompanhada de suas melhores bonecas. De cima do respiro do telhado chamou a atenção dos pais e do irmão menor, apresentando as bonecas numa história improvisada que ia surgindo em sua cabecinha. 

Ao final do espetáculo, quando desceu da aventura e apareceu na porta da sala, a mãe a olhava com cara de brava, antecipando a bronca e segurando o riso. Mas a grande recompensa veio dos braços do pai, que a envolveu em um abraço orgulhoso, dizendo: “Minha artista!”

– O que é artista, pai? – Perguntou ela na sua curiosa inocência. 

O pai, em sua simplicidade, respondeu: “aquele pessoal que trabalha no circo”. A partir daquele momento ela se transformou em artista. 

Ainda não sabia o que o futuro reservava para sua vida, mas tinha certeza que queria arrancar sorrisos. 

A menina é Maria Aparecida Marinho, Cidinha Marinho, atriz, dramaturga, contadora de história, palhaça, sonhadora e criadora de um dos projetos de maior referência social em Caçapava: Pote de Ouro, no “final do arco-íris”, como ela gosta de descrever. 

Da infância mambembe na roça ao despertar para o teatro

Cidinha nasceu na zona rural de Caçapava em fevereiro de 1960. Era a primeira filha do senhor Joaquim José e de dona Maria Aparecida, que trabalhavam como empregados de fazenda. O irmão caçula, José Aparecido, apelidado de Batu, nasceu três anos depois. 

Os pais, de origem mineira, haviam chegado em Caçapava alguns anos antes, convidados pelo então fazendeiro José Vieira Junqueira para trabalharem em sua propriedade. 

Morando com os pais na Serra de Jambeiro, distante de qualquer unidade escolar e sem acesso a transporte, Cidinha só começou a frequentar a escola aos oito anos.  Foi o patrão dos pais que percebeu a situação e enviou a família para a região de Santa Luzia, onde havia escola próxima. 

Formatura do ginásio ao lado dos pais e do amigo Ney Sanita. Aos fundos, a diretora Irmã Fortunata Ferreira.

Ela cursou o primeiro ano na escola situada atrás da igreja do bairro. Depois, do segundo ano em diante, foi aluna do SESI 30, que na época ocupava o prédio em frente ao Museu Roberto Lee, no Vera Cruz. Participou da primeira turma de formandos do Ginásio no SESI. “Estudar foi o que eu mais gostei de fazer em minha vida”, fala.

No Sesi, Cidinha teve o primeiro contato com a arte. “Devido ao meu tamanho, por eu ser muito falante, ler muito bem, eu tinha uma imaginação fértil, escrevia horrores, as professoras todas me colocavam para subir no palco”, explica. 

A natureza não quis que Cidinha crescesse muito. Ela permaneceu com a altura que tinha aos oito anos, um metro e trinta, o que nunca a impediu de realizar nada. Na criatividade continuava ganhando o céu, sempre falante, divertida e desinibida para falar em público.  

Contudo, foi devido ao seu tamanho que ela sofreu bullying dos meninos na escola. Muitas vezes com agressões físicas. Isso não a impediu de se destacar em sala de aula, tirando as melhores notas da turma e ganhando concursos de redação promovidos por editoras na escola. 

Os agressores do passado aprenderam com ela e se tornaram alguns dos amigos respeitosos do presente. 

Enquanto a escola era um refúgio para seus sonhos, fora dela, a realidade se impunha. Aos onze anos, Cidinha começou a trabalhar no balcão de um bar porque queria um par de sapatos para participar do desfile escolar e os pais não tinham condição de comprar. Aos treze anos se tornou babá, depois empregada doméstica, mais tarde trabalhou no setor de serviços e no comércio. Nunca parou. 

Ainda na infância, quando a mãe trabalhava prestando serviços em uma casa, Cidinha e o irmão, a convite da patroa, passaram a frequentar a residência e a almoçar com a família. Foi então que Cidinha fez sua primeira grande amizade, que a acompanha até hoje, o amigo Sidnei Sanita.

Essa amizade rendeu frutos durante o tempo em que os dois participavam do grupo de jovens da Igreja São Benedito. Ela estava, então, com 20 anos. Juntos escreviam peças de teatro sobre assuntos polêmicos e apresentavam aos amigos do grupo. 

Era tempo de regime militar no país. Uma dessas peças, “Liberte-se, você também”, abordava o tema das drogas. A peça acabou tendo que ser submetida à aprovação do juiz. “O texto voltou sem nenhum corte, porém com a condição de ser apresentada para uma plateia de cinquenta autoridades”, explicou Cidinha. 

A exibição aconteceu no palco do subsolo do Estadinho. “Eu fazia a protagonista. Gente, foi muito bom!”. Era a primeira vez que Cidinha se apresentava para um público fora da escola e da igreja. A peça foi um sucesso e despertou ainda mais em Cidinha o seu amor pelo teatro.

Adversidades, palhaçaria e maternidade inesperada

Infância pobre, fome, violência doméstica causada pelo alcoolismo do pai e preconceito foram alguns dos enfrentamentos de Cidinha ao longo da vida. Mas mesmo com as adversidades, ela jamais deixou de ser grata e ver o lado bom das pessoas.

Em seu primeiro emprego depois do Ensino Médio, ela atuou durante três anos como secretária em um consultório. Atendeu a três profissionais de saúde em início de carreira. O negócio prosperou, e um novo consultório foi construído por eles. 

“Quando eu fui pela primeira vez visitar o consultório em fase de acabamento, eu vi que eu não cabia no consultório, porque o balcão era mais de um metro e meio de altura. Aí eu me senti excluída. Ali eu sofri muito, porque eles me demitiram realmente”, confidenciou.

Outro revés em sua vida foi o trágico acidente do irmão. O rapaz, com 21 anos, perdeu as pernas na linha do trem e ficou internado por mais de um ano, em um hospital de São Paulo, entre a vida e a morte. O acidente devastou profundamente a família, inclusive abalando a saúde dos pais que já estavam idosos. 

Cidinha encontrou solidariedade em um de seus empregadores, o despachante Simonal. “Quando meu irmão sofreu o acidente, ele me deu todo o apoio. Toda semana ele me liberava um dia para visitar meu irmão. Nunca descontou o dia. Às vezes, até me dava dinheiro para comprar frutas para meu irmão, que precisava comer muita coisa saudável”, comenta. 

O acidente do irmão fez com que ela precisasse tomar a frente da família como provedora, desistindo de seu sonho de fazer uma faculdade. 

Mas se a vida fere, a arte cura.  

Em 1999, Cidinha, com 39 anos, retomou seu talento e começou a fazer cursos de teatro pela Prefeitura de Caçapava. Conheceu nomes de referência na região e de fora. Montou com os colegas a peça “O testamento do cangaceiro”, que ficou entre as finalistas em uma premiação em Taubaté. 

Depois disso, foi se aprimorar em oficinas gratuitas em São José dos Campos, onde se deparou com diretores mais exigentes. “Era muito puxado (…) diretores já velhos, calejados… aí eu fui ver o que era o teatro!”, explica. 

Um desses diretores, Atul Trivedi, pediu que os alunos fizessem uma cena de um minuto para apresentar na semana seguinte. Cidinha, atribulada com a rotina, não conseguiu preparar e resolveu improvisar. Deu certo. 

Depois de uma reprimenda do mestre, veio o convite para que a atriz escrevesse a partir da cena um monólogo: “Labirinto”. Com esse texto e a direção de Alcimar Gonçalves, ela ganhou o prêmio como melhor atriz no Mapa Cultural Paulista, no ano de 2007. 

Depois desse prêmio, foi convidada a fazer o filme Idade da Pedra, premiado no 13º Olhar de Cinema Festival Internacional de Curitiba. O filme segue participando de festivais no Brasil e fora.  

Cena de bastidores junto dos atores Matheus Nachtergaelle e Daelmo Canuto

Outro talento de Cidinha é sua habilidade em contar histórias a partir de textos consagrados. Um exemplo é a história “Bom dia todas as cores”, de Ruth Rocha, um texto que fala sobre diversidade e respeito e que ganhou, em sua performance, o coração de muitos ouvintes, em lares de idosos e festivais literários.

Bem antes disso, no ano de 2001, a partir de um curso de “Clown” (palhaçaria), Cidinha despertou o que talvez tenha sido um dos seus maiores legados para a arte e para a vida: a Danda Girassóis de Caçapava, uma palhacinha peralta que encantou crianças e adultos em diversas apresentações.

“Ela é minha maior ferramenta de trabalho hoje. Quando eu era mais jovem, eu ia para festas de aniversário, eu animava festas, entrava dando estrelas (…) Fui uma vez em uma casa de idosos em Jacareí (…), os velhinhos ficaram muito felizes”, conta.

Em 2009, quando o sonho de viver da arte parecia possível por meio de um convite para trabalhar em uma peça em São Paulo, Cidinha recebeu um outro presente inesperado da vida, o nascimento do sobrinho Tobias. A mãe, dependente química, não tinha condições de cuidar do menino. 

Sem pensar duas vezes, Cidinha mudou os planos. Ficou em Caçapava e criou o sobrinho como se fosse filho. 

No mesmo ano do nascimento de Tobias, Cidinha viveu o que considera uma das melhores fases da vida profissional. Ela foi convidada para ministrar oficinas teatrais no Conviver. “Eu trabalhei com a escola inteira, desde os assistidos múltiplos até os jovens. Foi uma das fases mais lindas da minha vida, foi uma benção para eu encerrar minha carreira”, explica.

 Um pote de ouro no final do arco-íris

Em 2014, incomodada com a situação de vulnerabilidade das crianças do bairro Maria Elmira, Cidinha resolveu que precisava agir.  

“Eu ficava preocupada com isso, com esse afastamento familiar, crianças jogadas nas ruas e aquela situação das esquinas (drogas). Então eu fiquei pensando: Meu Deus, eu preciso fazer alguma coisa para mostrar para essas crianças que o mundo é muito maior que as paredes dos quartos delas”, relata.

Inicialmente, ela bateu de porta em porta, conversando com as famílias do bairro. Dizia que ia fazer uma ação social e levar as crianças para brincar. “As mães, muitas vezes mais novas do que eu, me olhavam e pensavam: Essa velha é doida!”

Mas com a ajuda dos amigos Gilson Koba, Raquel Silva e Elda, entre outros, ela conseguiu realizar a primeira edição do projeto. 

No domingo de Páscoa do dia 20 de abril de 2014, as crianças do bairro Maria Elmira se juntaram àquela menina criativa que fazia teatro de fantoches no respiro do telhado. Brincaram de roda, pega-pega e se divertiram descobrindo formas criativas de estar juntos e socializar. 

O projeto passou a ser realizado mensalmente desde então, até o ano de 2024, quando Cidinha começou a realizá-lo bimestralmente depois de sofrer um AVC (Acidente Vascular Cerebral), além de sentir fortes dores causadas pela artrose. 

Ao todo, são 115 crianças de até 12 anos atendidas pela iniciativa de Cidinha e de seus amigos. As crianças recebem lanches, brinquedos e outros materiais doados por padrinhos. O projeto não recebe verbas públicas e nunca foi institucionalizado. Mas sua atuação gera frutos.

O Pote de Ouro

“Um dos integrantes do Pote de Ouro, na escola esse menino tinha tudo para ter outro caminho (…) perdeu a mãe, estava sendo criado pelo pai (…) mesmo assim quando tinha as recreações, o pai trazia de bicicleta. Ele sempre continuou, adolescente foi ser nosso ajudante. Estudava no Ruth Sá e hoje está no Canadá. Ele tira fotos e manda no grupo do projeto para outros jovens. (…) A Cidinha fez. Ela é isso, ela sempre vê um raio de luz em tudo que ela faz”, relata a amiga e participante Raquel Silva. 

Um Pote de Ouro também foi inspiração para outras iniciativas, como é o caso do projeto literário Sorriso do Felipe, cujo nome Cidinha ajudou a escolher. Ela ensinou a amiga Elizângela a transformar a dor de perder um filho em amor por outras crianças, por meio do estímulo à leitura e da promoção da convivência saudável. 

Hoje, com 66 anos e, muitas vezes com dificuldades financeiras e de saúde, Cidinha continua seguindo firme em sua missão de levar alegria e arrancar sorrisos. 

“Eu quero um arco-íris sobre o bairro Maria Elmira (…) Quero que, daqui a 20 anos, quando as crianças forem adultos, homens de bem, que se lembrem que alguém pensou neles com carinho. E se alguém perguntar por que Pote de Ouro, que cada um sinta dentro de si: eu sou uma pepita do pote!”, explica a senhora menina artista que percebeu, na brincadeira, o rumo da vida. 

Texto por Elisvânia Rodrigues

Fotos: Vinicius Branca e arquivo pessoal



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