
Ederson Vilela Pereira cresceu em Caçapava como tantos outros meninos do bairro Maria Elmira. Estudava na escola do SESI, depois no “Estadinho”, jogava futebol com os amigos e acompanhava o irmão mais velho nos treinos de corrida. Foi nesse ambiente simples, nas quadras e ruas da cidade, que começou a se formar a trajetória de um dos principais nomes da corrida de longa distância do país.

Filho do senhor Benedito e da dona Roseneia, na infância, sua rotina era a escola, o futebol e acompanhar o irmão Leandro, cinco anos mais velho, no treino de corrida, com o professor Fernando Carlos Ribeiro. Muitos dos treinos realizados no entorno da Associação Atlética Caçapavense.
Aos 9 anos, na competição Sebastião Lopes, em Nova Caçapava, ele foi convidado para correr com o irmão e aceitou o convite. Mesmo sem preparo, com o tênis errado e a roupa normal do dia a dia, Ederson se sentiu bem. Percebeu que gostava daquilo. Queria estar entre as crianças que recebiam troféus ao final da prova.
Nessa competição, ele não ficou entre os primeiros colocados, pelo contrário, estava longe disso, mas naquele dia, graças àquela prova, decidiu que iria se dedicar ao atletismo e passou a treinar com o professor Fernando.
Inspirado pelo irmão e com muito esforço e preparação, Ederson começou a se destacar na modalidade.
Com 15 anos, já conquistava medalhas nas corridas de rua do Vale do Paraíba, chamando a atenção dos organizadores. Foi então convidado por São José dos Campos para se federar, com direito a uma pequena bolsa.
Três meses depois, representando a cidade, participou do campeonato brasileiro de Cross Country, no Rio de Janeiro, onde foi campeão e se classificou para o Sul-Americano, que o levou para sua primeira viagem internacional à Argentina.
Ederson se tornou um dos melhores do país nas categorias Menor e Juvenil (nomenclatura que era aplicada, na época, às categorias Sub-18 e Sub-20).

Ao entrar na categoria adulta, o corredor caçapavense recebeu o convite para integrar a equipe BNF – Bovespa, de São Caetano, com núcleo em Campinas. Mudou-se para a cidade e ficou por três anos dividindo alojamento com outros atletas.
Regressou a São José dos Campos com 23 anos, em 2004. No mesmo ano, conquistou o Troféu Brasil de Atletismo, com o tempo de 13 minutos e 54 segundos, superando a marca de seu ídolo Marilson Gomes dos Santos, tricampeão da São Silvestre e da maratona de Nova York, num percurso de 5 quilômetros. Esse foi seu primeiro reconhecimento nacional na categoria adulto.
Em 2014, Ederson foi convidado para compor o time de atletas da Marinha, onde permaneceu por 8 anos, como terceiro-sargento. Em 2016, foi vice-campeão ibero-americano de atletismo, no Rio de Janeiro.

Seguiu competindo e conquistando bons resultados. Foi o melhor brasileiro na Corrida Internacional de São Silvestre, em 2017; recebeu o Troféu Brasil de Atletismo nos 10 mil metros, em 2018, e tornou-se o detentor da segunda melhor marca de 5.000 metros rasos do Brasil, com o tempo de 13 minutos e 23 segundos.
Tornou-se tricampeão do Troféu Brasil, tricampeão da Maratona Internacional de Curitiba e campeão da Volta da Pampulha em 2019, em Belo Horizonte.
Mas o grande momento da carreira veio em agosto de 2019. Enquanto o atleta passava por uma das maiores provas de sua vida, a família reunida torcia, assistindo pela TV.
Representando o Brasil, Ederson conquistou a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Lima, com o tempo de 28m27s47. Esse foi um momento de glória para o atleta.

“É uma sensação única. A gente quer viver de novo. Acabou a prova ali (…) passei no corredor da imprensa, uma entrevista atrás da outra, depois eu fui para Brasília encontrar com o presidente, eu e os outros medalhistas de ouro. Me senti ganhando a Copa do Mundo!”, recorda.
A conquista rendeu uma homenagem em Caçapava. Em carro aberto, Ederson saiu do Jardim Maria Elmira para a Praça da Bandeira, onde foi recebido por autoridades e aclamado publicamente pela população, recebendo uma placa de mérito esportivo.

Velocidade x Tempo
Se a velocidade é um pré-requisito para o atletismo, o tempo e a experiência ajudam a formar um campeão. Mais do que isso, contam o apoio e as oportunidades que permitem um atleta crescer na profissão.
Ederson veio de uma família que sempre incentivou o esporte. O pai praticava futebol e foi sua primeira inspiração. Depois veio o irmão com a corrida. Mesmo nas derrotas, a família sempre o estimulava com palavras positivas. Nunca havia cobranças.
Como a maioria dos atletas brasileiros, ele começou sem o tênis adequado, sem o equipamento ideal, mas contou com o olhar atento de um treinador que reconheceu seu potencial. Hoje, Ederson consegue viver do atletismo, com apoio de seu clube Esporte Clube Pinheiros e de seu patrocinador ASICS, mas foi preciso anos de dedicação.
A prática que leva à perfeição
As estradas rurais de Caçapava são testemunhas do esforço que conduz às vitórias. Ederson treina cerca de 3 horas por dia, todos os dias, incluindo, muitas vezes, o domingo. Corre em média 160 quilômetros por semana, podendo chegar a 200 quilômetros em períodos de competição.
O esforço físico também o levou a momentos difíceis. Em 2021, uma série de lesões o afastou de provas importantes e quase o fez desistir. A resiliência, porém, foi maior e, em 2025, ele voltou ao topo ao conquistar o Pan-Americano de Maratona, em São Paulo.

Hoje, aos 35 anos, o atleta deixa um conselho para as novas gerações: “Meu conselho é para os pais: que coloquem as crianças no esporte, que eu acho que é um meio que educa muito bem. Ela não precisa ser um atleta profissional nem nada, mas ela vai tirar muita lição dali, de superação, de companheirismo”.
O sonho continua. Ederson, o gigante do atletismo brasileiro, aquele menino caçapavense que começou correndo em volta do “lagão” da Associação Atlética, ainda quer ser um campeão olímpico. E segue acelerado em direção ao seu objetivo, levando consigo o apoio da família, da cidade e de todos que acompanharam sua trajetória.
Texto por Elisvânia Rodrigues
Fotos: Vinicius Branca e arquivo pessoal